Nov 14

Falta ou excesso de médicos em Portugal?

Publicado por Hugo Cadavez a 14 de Nov de 2008 às 2:28 Adicionar comentário

Como já há uns dias que não publico nenhuma notícia, muito por falta de notícias interessantes que não sejam sobejamente conhecidas, publico hoje um artigo que não sendo propriamente um destaque do dia, está sempre na ordem do dia.

Como se percebe pelo título, este artigo diz respeito ao número de médicos em Portugal, estando este assunto directamente relacionado com as vagas em medicina no nosso país. É um tema que desperta revolta em muita gente, revolta essa que não raras vezes é dirigida aos médicos ou estudantes de medicina, que já são vistos como pertencentes a esta classe.

Como alvo desta revolta, interessou-me reflectir sobre os motivos de tais expressões emotivas pouco simpáticas. Pois bem, cheguei a três razões que podem explicar a revolta dessas pessoas: ou porque acham que os médicos são uma classe muito privilegiada (digam-me onde estão os privilégios que quero aproveitá-los); ou porque acham que não têm os cuidados de saúde a que acham que teriam direito (um hospital por pessoa); ou porque a média de acesso ao curso é muito alta (mas quem faz a média são as vagas e os candidatos; e as vagas são já, a meu ver, demasiadas apesar de nunca serem suficientes para tantos candidatos).

Antes de voltar à questão das vagas em medicina em Portugal, destaco só alguns dados da Organização Mundial de Saúde. Em 2005 Portugal dispunha de 3,4 médicos por cada 1000 habitantes, um valor superior às médias da União Europeia (3,2 médicos por 1000 habitantes) e dos Estados Unidos da América (2,6 médicos por 1000 habitantes). Estes números colocam Portugal acima de países como Espanha, Alemanha, França, Reino Unido, Holanda, Dinamarca e Suécia.

O que leva então à percepção de que há falta de médicos em Portugal? As conclusões de alguns estudos apontam para uma distribuição regional desequilibrada e uma má distribuição por especialidades.

Apesar destes dados o que se tem verificado é um aumento nas vagas em medicina. Num espaço de 10 anos o numerus clausus de Medicina teve um crescimento de 288%, tendo atingido, em 2008/2009, um recorde histórico de 1614 vagas. Este número excede as aposentações previstas em qualquer dos anos até 2021. De facto, entre 2000 e 2020, o excedente de licenciados corresponde a um total de 6350 médicos.

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Por este ritmo qualquer dia estarão a formar-se médicos que não terão emprego. E note-se que há um custo para a sociedade pela formação de cada estudante de medicina, custo esse que ascende a mais de 10000 euros por estudante por ano.

Quanto aos critérios de acesso ao curso, quero apenas deixar a minha opinião pessoal. Muito se fala sobre as altas médias de acesso ao curso e sobre a “injustiça” de deixar de fora alunos com médias de 18 valores. Pois bem, os critérios de acesso ao curso de medicina são exactamente iguais aos de todos os outros cursos. Há um determinado número de vagas e essas vagas são ocupadas pelos candidatos de acordo com a sua média. Passarão a entrar em medicina alunos com médias de 15 valores quando os que têm médias superiores passarem a desejar outros cursos, algo que por este ritmo acontecerá brevemente quando o mercado estiver saturado e com médicos no desemprego.

Concluindo, a meu ver em Portugal (ainda) estamos perante um razoável equilíbrio entre a procura e oferta de médicos. Temos mais médicos por habitante do que muitos países da União Europeia, embora a maioria das pessoas não se aperceba disso e até se mostrem descontentes e revoltadas com o difícil acesso a cuidados médicos. Talvez os portugueses fiquem contentes quando cada um tiver um vizinho que seja médico: porta sim, porta não, um médico! Ora aí sim é que o verdadeiro tuga ficava contente! Esquecem-se que um médico que não tenha um número mínimo de doentes nunca terá a experiência adequada ao bom desempenho clínico. Isso sim pode um dia colocar em risco a saúde dos portugueses.

Links:
Posição da ANEM sobre a abertura de novos cursos de Medicina
Posicão da ANEM sobre a abertura do novo curso de Medicina na Universidade do Algarve

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